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Monitoramento Remoto de dispositivos cardíacos: perguntas e repostas

e-Patient Brazil: O que é e como funciona o Monitoramento Remoto de DCEIs?

Dr. Gustavo Lara Moscardi: Os Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis (DCEIs) compreendem os marca-passos, desfibriladores e ressincronizadores cardíacos. Esses dispositivos contam com a possibilidade de envio de dados a distância, para uma central online, para o acesso remoto de pessoas habilitadas, com a finalidade de fornecimento de informação acerca do funcionamento do dispositivo, da sua integridade e de sinais vitais e intercorrências com os pacientes, como as arritmias cardíacas e os dados relacionados com insuficiência cardíaca. O monitoramento remoto é o conjunto dessas ações, portanto compreende a transmissão de dados dos dispositivos a distância, a sua organização e apresentação, e a sua visualização e interpretação por profissional habilitado, que pode ser diariamente realizada ou em outros intervalos programados.

A tecnologia para o monitoramento à distância dos dispositivos já existe há mais de 10 anos e nos dias atuais, a maioria dos DCEI dos principais fabricantes possuem a tecnologia necessária já embarcada no dispositivo, permitindo o monitoramento de parâmetros técnicos e clínicos à distância.

A imensa maioria dos dispositivos utiliza comunicação wireless, sem necessidade de conectores físicos, ou mesmo de cabeçotes de proximidade, assim sendo, a comunicação é “transparente” para o usuário, que ao se aproximar do receptor nos horários programados (geralmente o horário de repouso), já tem a comunicação entre o transmissor e receptor efetivada sem a necessidade de qualquer tipo intervenção.

Nesse momento, os dados acumulados no dispositivo durante o período são enviados para o sistema central do fabricante, permitindo a análise pelo profissional responsável.

Após serem recebidas no receptor/transmissor, as informações são transmitidas via linha telefônica fixa, via internet ou via GPRS. Nesse último caso, a estrutura utilizada é o das torres de aparelhos celulares, altamente difundidas por todo o país e viabilizando regiões que antes eram consideradas de difícil acesso.

e-Patient Brazil: O que é necessário para ter Monitoramento Remoto?

Dr. Gustavo Lara Moscardi: Para um paciente ser monitorizado remotamente, primeiro o gerador do DCEI deve ter essa propriedade, segundo o paciente necessita de um transmissor que transfere os dados para internet e terceiro o paciente deve ter seu sistema configurado por um técnico ou especialista na área para o correto funcionamento. Praticamente todos os dispositivos a venda no país poderiam ser monitorizados, porém apenas duas das quatro empresas que vendem DCEI no país a tem disponível no momento, a Biotronik e a St. Jude Medical.

e-Patient Brazil: Qual a importância do Monitoramento Remoto?

Dr. Gustavo Lara Moscardi: O Monitoramento Remoto é obrigatório nos E.U.A. e na Europa devido a seus benefícios comprovados. Os estudos científicos demonstram que a detecção de complicações relacionadas com o sistema (bateria e eletrodos) é precoce com o monitoramento remoto, o que evita choques inapropriados em portadores de desfibriladores. A detecção de arritmias também é precoce, fato que habilita o médico assistente a iniciar terapia medicamentosa com potencial prevenção de complicações como o derrame. As consultas presenciais podem ser reduzidas com o monitoramento remoto com segurança. Estudos recentes e metanalises demonstram redução de mortalidade nos pacientes que são monitorizados, principalmente pelo melhor controle da Insuficiência Cardíaca em portadores de Desfibriladores e Ressincronizadores Cardíacos.

e-Patient Brazil: Se a tecnologia está disponível, e a maioria dos dispositivos pode oferecer esta possibilidade há tantos anos, porque não está difundida no Brasil de forma ampla? O que explicaria isso?

Dr. Gustavo Lara Moscardi: Para responder essa questão, precisamos analisar o ponto de vista dos Responsáveis pela liberação da aquisição do dispositivo, fornecedores da tecnologia, dos médicos acompanhantes e dos pacientes portadores dos dispositivos.

  • Responsáveis pela aquisição do dispositivo: Logicamente quando temos um dispositivo com tecnologia de ponta, estrutura robusta e acessórios adicionais (Receptor/Transmissor) necessários para o funcionamento, teremos um aumento no valor final do dispositivo. Esse valor, naturalmente vai ser questionado pelo responsável pelo desembolso do recurso, no caso o estado (Sistema público de saúde), Empresa (Convênios de Saúde Particulares) ou o próprio paciente, questionando o médico e fazendo sua pesquisa pessoal sobre as vantagens da tecnologia de monitoramento. Como as vantagens Clínicas e Mercadológicas não ficaram claras para o responsável pelo recurso, o mesmo costuma calcular no curto prazo e preferir um menor desembolso imediato do que fazer um desembolso maior no curto prazo, e economizar no médio e longo prazos.
  • Fornecedores da Tecnologia: Equipe técnica e empresa fornecedora precisam estar capacitados para apresentar satisfatoriamente os benefícios e vantagens para todos os envolvidos, preparados para fornecer a documentação necessária para os tramites técnico-operacionais.
  • Paciente: Na maioria dos casos, os pacientes buscam alguma informação sobre a sua situação de saúde após descobrir a sua condição. Como as etapas anteriores não informaram a ele a opção de ter ou não o monitoramento diário, ele sequer teve conhecimento dessa possibilidade. Mesmo quando ciente da possibilidade do monitoramento, em muitos casos o paciente tem o receptor/transmissor negado pelo sistema público ou convênio, restando apenas a opção de aquisição do receptor mediante pagamento à vista, o que não é possível na maioria dos casos.
  • Profissional de Saúde:
    • Os principais pontos que interferem na decisão do profissional de Saúde, principalmente para os médicos são:
    • Alta carga horária de trabalho: Conforme o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), 1/3 dos profissionais médicos trabalha mais de 60 horas semanais, em mais de 3 empregos diferentes. Sendo que nesse número não está incluído o tempo de deslocamento, estimado entre 1-2 horas/dia (podendo aumentar esse tempo para mais de 72 horas/semana). Assim, quando temos um sistema de informação (Monitoramento Remoto) que precisará ser visualizado diariamente, podemos simplesmente estar exigindo uma disponibilidade que o médico acompanhante pode simplesmente não ter.
    • Falta de remuneração pela prestação de serviço: Nos moldes atuais, o profissional que indicar o uso do monitoramento, precisará analisar os dados diariamente, por toda a vida útil do dispositivo implantado, essa análise precisa ser feita diariamente  (podendo chegar a mais de 10 anos, um mesmo dispositivo), e frequentemente necessitará da consulta do histórico de análises do paciente. Essa tarefa exige uma estrutura que o profissional precisará construir e seguir religiosamente, para conseguir prestar o serviço satisfatoriamente, lembrando, sem qualquer remuneração adicional.
    • Custos acessórios para o monitoramento do paciente: Frequentemente teremos a seguinte situação no monitoramento remoto: o receptor está desligado, em outro recinto, ou programado para manter a comunicação em um horário que o paciente não se encontra no mesmo ambiente do equipamento. Nesses casos, um contato com o paciente é necessário, perguntando sobre a situação e, caso necessário, prestar o serviço técnico necessário para o retorno da comunicação e consequente transmissão do equipamento. Para isso, são necessários procedimentos padrão de acompanhamento, verificação do paciente, comunicação via telefone, assistência técnica e feedback. Lembrando que não temos remuneração por esse serviço, agora  passamos a ter um custo de manutenção para utilizar a tecnologia de monitoramento, assim não apenas temos um fator de “zero estímulo”, mas sim um fator de “estímulo negativo”, onde é necessário o custeio da estrutura de atendimento, sempre que o médico indicar o monitoramento remoto. Ato contínuo, o mesmo não será indicado por falta de estrutura, e essa estrutura não será criada pelo seu custo/benefício.
    • Temor de implicações legais em caso de demora em responder à um alerta específico: apesar do sistema de monitoramento não ser um sistema de emergência, o profissional teme as implicações que poderiam ocorrer, caso indicasse o monitoramento e não a visualizasse com a frequência necessária.

e-Patient Brazil: Como se conseguir o Monitoramento Remoto?

Dr. Gustavo Lara Moscardi: Se você possui uma prótese compatível com o Monitoramento Remoto, você deve ter acesso ao receptor. Atualmente os marca-passos da St. Jude Medical e da Biotronik têm viabilidade para esse serviço no país. O ideal é que todo o sistema seja entregue na ocasião do implante, ou pelo menos a sua autorização se incluído no pacote do convênio, portanto pode ser incluído no pedido médico do DCEI. Se você já é portador de uma prótese compatível, a aquisição do receptor pode ser tentada com a orientação do seu médico, por que ele que irá acompanha-la remotamente, ou diretamente através da empresa. Não existe um processo para isso, criando dificuldade para os pacientes obterem os benefícios do monitoramento remoto se já passaram do momento do implante.

Dr. Gustavo Lara Moscardi (CRM-DF 18.483) é Cardiologista, e trabalha com Estimulação Cardíaca Artificial. Ele tem ampla experiência na área de monitoramento remoto. Atualmente pacientes do sistema público de saúde procuram um entendimento com o Ministério da Saúde por meio da COMISSÃO NACIONAL DE INCORPORAÇÃO DE TECNOLOGIAS NO SUS – CONITEC para conseguir a incorporação desta tecnologia no sistema público de saúde. Para saber mais leia aqui goo.gl/6Wg9BB .

No mercado mundial o monitoramento remoto e telemedicina é obrigatório para dispositivos como marca-passos, nos Estados Unidos e Europa. As Empresas e seus respectivos serviços são:

  1. Biotronik com Home Monitoring e Cardiomessenger
  2. Boston Scientific com Latitude
  3. Medtronic com Carelik e Carelink Express
  4. Sorin com Smart View (ainda não presente no território nacional)
  5. Saint Jude Medical com Merlin Home

O crescimento do número de implantes anualmente impõe uma carga grande ao sistema de saúde, publico e privado, pois as avaliações desses dispositivos devem ser realizadas regularmente e demandam mão de obra super-especializada, e a disponibilidade dessa não cresce na mesma proporção das indicações dos implantes.

Luciana Alves PhD e-Patient Advisor | Blogger at e-Patient Brazil |Member of Society for Participatory Medicine

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Um comentário sobre “Monitoramento Remoto de dispositivos cardíacos: perguntas e repostas

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