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Anestesia em pacientes com arritmias cardíacas e dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis

Pacientes em tratamento cardiológico frequentemente são referenciados por serviços de odontologia para serem submetidos a avaliação de possíveis riscos relacionados ao uso de anestésicos. Tal cuidado é especialmente frequente com pacientes que apresentam arritmias ou quando são portadores de marca-passos (MP) e cardioversores-desfibriladores implantáveis (CDI).

O aspecto de maior relevância neste cenário refere-se aos esforços para o adequado controle do estresse e da ansiedade que podem, per se, funcionar como gatilhos para reflexos neuromediados e eventos arritmicos. Desta forma, anestesia e analgesia eficazes, por vezes associados a sedação, podem ser importantes na prevenção de eventos cardiovasculares (por exemplo: taquicardia ventricular polimórfica catecolaminérgica, síndrome do QT longo congênito, etc). Por outro lado, doses elevadas de anestésicos locais contendo vasoconstritores (epinefrina) podem, em tese, também deflagrar tais eventos.

Os anestésicos com vasoconstritores apresentam diversas vantagens: aumentam a intensidade e duração do efeito anestésico, promovem hemostasia e reduzem potenciais efeitos tóxicos sistêmicos por reduzir a absorção local do anestésico. Contudo, tais benefícios devem ser contrapostos a possíveis efeitos adversos. Estima-se que a dosagem plasmática de epinefrina atinja o dobro do basal após a administração de 1 cartucho de lidocaína 2% com epinefrina 1:100.000.[1]  A absorção de epinefrina tópica pode resultar, ainda que não seja frequente, em aumento significativo do débito cardíaco, taquicardia, sudorese e palpitações. Por este motivo, o equilíbrio de uma anestesia ótima, mas sem excessos, é a melhor forma de se oferecer conforto e segurança.

Portadores de marca-passos, sem associação com outros tipos de arritmias, não apresentam habitualmente contraindicação para o uso de quaisquer anestésicos em doses terapêuticas. Já os portadores de CDI estão sujeitos à ocorrência de taquiarritmias e devem ser manejados com cautela maior.

Ainda há controvérsias quanto ao real impacto clínico destes fármacos na potencialização de eventos arrítmicos clinicamente relevantes.[2] Como não há protocolos bem definidos e consensuais na literatura, recomenda-se geralmente que, sendo imprescindível o uso de anestésicos com vasoconstritores, que a menor dose eficaz possível seja utilizada. Outras variáveis relacionadas aos diversos tipos de cardiopatias estruturais (doença coronária, valvopatias, insuficiência cardíaca, etc) devem ser individualizadas e o cardiologista assistente deve ser consultado para decisão conjunta quanto à melhor abordagem.

*Dr. Ricardo Alkmim Teixeira – CRM-MG 35.215; CRM-SP 82.995 – Autor Convidado de PACEMAKERusers


[1] Malamed SF. Handbook of Local Anesthesia. 5th ed. Elsevier Health Sciences. St Louis, Missouri, USA; 2004:41-54.

[2] Olufunke Adewumi A, Grace Tucker L. Dental management of a patient with catecholaminergic polymorphic ventricular tachycardia: a case report. J Dent Child (Chic). 2013 May-Aug;80(2):101-4.


*Sobre o autor: Doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo | Médico Assistente da Unidade Clínica de Estimulação Cardíaca Artificial do Instituto do Coração – InCor HC FMUS | Professor de Cardiologia da Universidade do Vale do Sapucaí – UNIVÁS, Pouso Alegre (MG) | Diretor Clínico do Hospital Renascentista, Pouso Alegre (MG).

 

 

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