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Vou ser submetido a um procedimento cirúrgico: aplicação e influência do ímã no dispositivo cardíaco

 

Eventualmente, em alguns casos, pacientes portadores de DCEIs (Dispositivos Cardíacos Eletrônicos Implantáveis) – dentre eles marca-passos, ressincronizadores, CDIs (Cardioversores Desfibriladores Implantáveis) e CRTDs (CDIs com ressincronizadores) – precisam ser submetidos a outros procedimentos cirúrgicos, sejam de origem cardíaca ou não.

É primordial que o paciente entre em contato com o médico (cardiologista, por exemplo) que o acompanha regularmente para falar sobre o procedimento antes que tal seja realizado, de maneira a averiguar se há necessidade de alguma medicação diferenciada, como antibióticos para evitar risco de infecção, programação especial do DCEI ou contato do médico com o técnico da empresa responsável pelo DCEI do paciente para acompanhar o paciente/reprogramar o DCEI antes, durante e/ou após o procedimento a ser realizado.

Procedimentos cirúrgicos que envolvem bisturi elétrico (eletrocautério) são normalmente uma preocupação para o cardiologista do paciente, para o médico que será responsável pelo procedimento e, é claro, para o paciente. Isso é devido ao fato de que os DCEIs podem sofrer interferências eletromagnéticas com o uso do eletrocautério.

Há discussões constantes quanto às consequências do uso do eletrocautério em pacientes portadores de DCEIs. Discussões que falam desde pequenas “pausas” temporárias no ritmo do paciente até desprogramações e curto circuito nos DCEIs. Seja qual for a “consequência” da interferência causada pelo bisturi elétrico, nenhuma delas é boa para o paciente. Assim, como diz o ditado, todo cuidado é pouco.

Há basicamente dois tipos de eletrocautério: unipolar e bipolar. Normalmente pode-se dizer que o bisturi elétrico unipolar causaria mais interferência que o eletrocautério bipolar por sua maior “antena” de campo elétrico e eletromagnético. Não tratarei desse tema engenheirístico aqui.

Uma cautela normalmente utilizada também é afastar o máximo possível a pá (terminal) de aterramento do eletrocautério do DCEI. Isso se faz normalmente posicionando tal pá na panturrilha do paciente.

Também se pede que o médico responsável pelo procedimento use o eletrocautério de maneira pulsada, intermitente, com pausas no uso deste no paciente.

É interessante que se tenha em sala cirúrgica um marcapasso temporário (externo) e um desfibrilador externo. Como equipamentos de suporte de emergência, tais devem ser testados previamente.

O cardiologista (por exemplo) do paciente normalmente entra em contato com o médico que será responsável pelo procedimento a ser realizado para elucidar mais o caso, de maneira que o cardiologista tem maior conhecimento do que precisa ser feito com relação a medicamentos e reprogramação do DCEI (se for o caso).

Há casos em que os cardiologistas preferem não realizar nenhuma reprogramação no DCEI nem pedir colocação do imã sobre o gerador durante o procedimento.

Há casos em que é dito ao médico responsável pelo procedimento para este colocar um imã sobre o gerador do paciente enquanto o procedimento estiver em andamento.

Há casos em que é feita a entrega do imã ao médico responsável pelo procedimento para que este o coloque sobre o paciente ao realizar o procedimento.

Com a colocação do imã sobre o DCEI há normalmente uma modificação na maneira deste “trabalhar”.

Os DCEIs são feitos para “trabalharem” sob demanda, sincronizados com o ritmo cardíaco do paciente, vindo a “trabalhar”, ou seja, liberar seu pulso de estimulação apenas quando necessário, quer dizer, quando o coração do paciente “falha”. Quando o ritmo natural do paciente é suficiente para não ativar o pulso artificial do DCEI, este permanece inibido. Os DCEIs atuais são chamados de dispositivos de demanda ou síncronos.

Com a colocação do imã sobre os DCEIs, essa “lei” interna é quebrada.

Em marca-passos e ressincronizadores, a colocação do imã sobre eles faz com que a estimulação sincronizada e a inibição do estímulo com o ritmo do paciente seja anulada. Nesses casos o marca-passo/ressincronizador fica assíncrono, desrespeitando qualquer ritmo do paciente, “cego”, estimulando a uma frequência fixa. Normalmente a frequência de estimulação e a amplitude de pulso (energia de estimulação) permanecem as mesmas.

Em CDIs e CRTDs a colocação do imã sobre eles faz com que as terapias de ATP (estimulação anti taquicardia) e choque dos dispositivos sejam suspensas a qualquer frequência elevada que se faça detecção. O comportamento da terapia de bradicardia também existente nesses DCEIs em particular são as mesmas já mencionadas em marca-passos/ressincronizadores.

Com a evolução dos DCEIs e suas funções que parecem às vezes mágicas, em alguns casos a colocação do imã não faz com que o gerador entre em seu modo assíncrono nem suspenda as terapias de ATP e choque. Detalharemos mais sobre isso em outro artigo.

Nesses casos “especiais” é necessária a ”interferência” de um técnico da empresa responsável pelo DCEI, que faz uma avaliação completa e reprogramação pedida pelo cardiologista antes do procedimento e retorna o DCEI à sua programação anterior logo após o procedimento, também realizando uma avaliação completa do gerador.

Normalmente tal reprogramação é mudar o modo de estimulação para um modo assíncrono, uma amplitude de pulso (energia de estimulação) mais elevada e uma frequência de estimulação diferente (se pedida pelo cardiologista ou pelo médico do procedimento). Varia de acordo com o pedido médico também a permanência ou não do técnico em sala durante todo o procedimento.

Lembre-se: sempre consulte seu médico para obter sua opinião sobre seu procedimento a ser realizado!

Eng. Caio Vinha – Especialista de Dispositivos Cardíacos – Profissional Aliado (Certified Cardiac Device Specialist – Allied Professional) – Heart Rhythm Society (HRS)/EUA – Autor convidado de PACEMAKERusers

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