News

Qual a longevidade dos dispositivos cardíacos eletrônicos implantáveis?

Essa é uma questão que tanto os pacientes quanto os profissionais da área da saúde fazem e a melhor resposta é: depende.

Os marca-passos são dispositivos de baixa tensão e emitem pulsos de 10 volts no máximo com baixíssima corrente elétrica.

Os modelos mais conhecidos de marca-passos são os modelos VVI, com uma só saída de estimulação (no ventrículo) e DDD, com duas saídas de estimulação (átrio e ventrículo). Há ainda um terceiro modelo, hoje mais conhecido como uma programação do que como um modelo de marca-passo, que é o VDD, gerador que possui só uma saída de estimulação (no ventrículo) com uma função especial de monitoramento atrial para fazer o sincronismo entre as câmaras atriais e ventriculares. Não serão discursadas aqui as diferenças mais detalhadas sobre um ou outro modelo de marca-passo.

Se for pensado que o marca-passo VVI e o marca-passo VDD possuem só uma saída de estimulação e o marca-passo DDD possui duas saídas, seria lógico pensar que os marca-passos VVI e VDD teriam maior longevidade que o marca-passo DDD, já que os primeiros gastam metade do que gasta o último. Entretanto, o marca-passo VDD possui um circuito de monitoramento no átrio, tendo assim um gasto a mais de bateria. Assim, pode-se dizer que o marca-passo VVI tem maior longevidade que o marca-passo VDD, que tem maior longevidade que o marca-passo DDD. Mas essa afirmação é bastante simplória, pois há muitos outros fatores a serem relacionados.

A afirmação acima só seria verdadeira se a capacidade de bateria de todos esses geradores fosse a mesma, tivessem exatamente a mesma programação de funções e algoritmos bem como seu comportamento fosse idêntico para todos os pacientes, o que, é claro, não ocorre na vida real.

Mesmo em um dado modelo de marca-passo, por exemplo, VVI, cada fabricante possui sua bateria, com diferentes capacidades, resultando em diferentes longevidades.

Supondo que todos os fabricantes tenham, no mesmo modelo de marca-passo, capacidades de bateria idênticas, os compostos químicos da bateria entre os fabricantes podem ser diferentes, ou seja, podem oferecer comportamentos e longevidades diferentes.

Esgotando a questão sobre capacidade de bateria, mesmo que todos os fabricantes tenham a mesma bateria, com a mesma capacidade, as longevidades podem ser diferentes.

Apesar de muitos pensarem que o maior gasto advém dos pulsos de estimulação, há um gasto de bateria “escondido”, que é o consumo interno do gerador, usado para manter o marca-passo monitorando o ritmo do paciente, em standby (de prontidão), para fazer seu trabalho. Há também um gasto de bateria para a armazenagem de dados diagnósticos dos pacientes. Esse uso às vezes gasta mais que o próprio gasto com o pulso de estimulação.

Considerando um mesmo modelo de marca-passo e com todas as particularidades de bateria idênticas, pode-se ainda ter longevidades distintas, pois o gasto depende da programação das funções e algoritmos do gerador. Dentre as mais conhecidas e importantes, pode-se relacionar:

  • A frequência de estimulação, quer dizer, de quanto em quanto tempo é liberado um pulso ao coração do paciente. Normalmente o gerador vem programado com 60ppm (pulsos por minuto). Quanto maior o número, mais rápido se está emitindo os pulsos, ocasionando maior desgaste da bateria e, por consequência, menor longevidade se terá. Um exemplo claro é uma criança portadora de marca-passo, que precisará de maior frequência de estimulação, fazendo com que seu marca-passo tenha longevidade menor que a de um adolescente e, subsequentemente, a de um adulto.
  • Amplitude e largura de pulso. Juntos esses dois parâmetros compõem a energia com a qual será emitido o pulso de estimulação. Quanto maior a amplitude e a largura do pulso de estimulação, mais desgaste de bateria se tem e menos longevidade se tem.

Ainda há muitos outros algoritmos (podem chegar a QUARENTA funções) que mudam o comportamento do gerador e, portanto, ocasionam mais ou menos desgaste de bateria, resultando em estimativas de longevidade para menos ou mais. Falaremos no futuro sobre os mais importantes.

Apesar de todas as condições de bateria e programação de funções/algoritmos poderem ser satisfeitas em igualdade, ainda teremos o componente “paciente” na equação. E esse componente jamais será igual.

Devem ser consideradas as patologias dos pacientes. Uma patologia exige comportamento distinto do gerador em comparação à outra patologia, resultando em desgastes de bateria distintos e, subsequentemente, longevidades distintas. E mais, mesmo que a patologia de dois pacientes sejam as mesmas, um pode exigir comportamento do gerador do outro, exigindo também mais ou menos desgaste de bateria e, portanto, menos ou mais longevidade. A quantidade de tempo e como o marca-passo trabalha efetivamente emitindo pulsos de estimulação, monitorando e armazenando dados faz toda a diferença na longevidade.

Ao final, mesmo com todas as equações e cálculos “matemágicos” para tentar adivinhar quanto vai durar o gerador, uma estimativa que seja feita jamais será igual à vida real do paciente.

Tenho em minha família um exemplo claro. O primeiro marca-passo implantado em minha sogra tinha estimativa de longevidade acima de 11 anos, mas ele durou “apenas” 9 anos. Por que? Exatamente porque os cálculos são frios e estimados estaticamente e minha sogra é dinâmica (e bota dinâmica nisso)!

Há ainda o modelo de marca-passo chamado ressincronizador, o qual possui três saídas de estimulação. É justo pensar que este modelo de gerador gasta mais que um VVI, um VDD e um DDD, sem dúvida. E é mais justo ainda colocar em pauta todas as questões levantadas anteriormente.

Por último mas não menos importante, temos os dispositivos de alta tensão, os CDIs e os CRTDs, que além das saídas de estimulação dos marca-passos de no máximo 10 volts, ainda possuem os pulsos de reversão de taquiarritmia que podem ultrapassar 800 volts. É desnecessário dizer que o gasto de energia deles é totalmente diferente dos marca passos e ressincronizadores e a longevidade deles é também bem diferente.

Não há uma regra para a longevidade que possa ser aplicada com exatidão!

O porquê do médico escolher um ou outro modelo de marca-passo, ressincronizador, CDI ou CRTD e como programar o dispositivo está relacionado com a patologia de cada paciente e suas necessidades. Tenha certeza que o médico escolherá o melhor dispositivo para cada caso!

No final o mais importante é o bem-estar de todos os pacientes. A longevidade do dispositivo é secundária…

Por Eng. Caio Vinha – Especialista de Dispositivos Cardíacos – Profissional Aliado (Certified Cardiac Device Specialist – Allied Professional) – Heart Rhythm Society (HRS)/EUA. – Autor convidado de e-Patient Brazil – Pacemaker Users

Padrão