News

Peculiaridades da Estimulação Cardíaca em crianças

A estimulação cardíaca em crianças é um grande desafio. Normalmente não contamos com centros especializados em arritmias em crianças (existem poucos no país) e esta demanda acaba sendo realizada em centros de estimulação cardíaca de referência em adultos. E como todos sabemos, as diferenças farmacológicas e farmocodinâmicas entre crianças e adultos não devem ser ignoradas.

Perguntas a serem respondidas sempre que estamos diante de uma criança que necessita de um sistema de estimulação cardíaca artificial definitivo são:

1)  Quantos anos ou meses tem esta criança?

2)  Qual sua expectativa de vida?

3)  A indicação de estimulação cardíaca é associada a uma cardiopatia complexa?

4)  Quantos eletrodos e geradores essa criança vai necessitar ao longo de sua vida?

5)  Quantos acessos tenho até o coração? E qual o melhor neste momento da vida desta criança? Sempre prevendo a preservação de vias para acessos futuros.

6)  E não menos importantes: O marca-passo vai ficar visível? Esta criança poderá brincar como toda criança?

Estas perguntas respondidas, iremos para novas discussões. Qual o real impacto hemodinâmico dos sintomas de bradicardia numa criança?

Qual o melhor marca-passo a ser utilizado? A decisão passa, sem dúvida, pelo tamanho dos geradores, que não são feitos pensando em crianças com pesos à vezes inferiores a 2.500g. No entanto, é muito importante salientarmos que crianças com cardiopatias complexas necessitam muito do débito atrial e a decisão por um dupla câmara fará uma grande diferença em sua evolução.

Qual a melhor técnica cirúrgica a ser empregada? Para esta questão todas as outras acima já devem estar respondidas. Em nossa experiência no Hospital Beneficência Portuguesa de São Paulo, referência no tratamento de cardiopatias complexas, a decisão pelo Dupla Câmara, via epicárdica, com eletrodos bipolares de contato e com a técnica subxifóide tem sido a mais empregada. Esta técnica também usada por Lania Romanzini e col no Hospital Pequeno Princípe de Curitiba, nos permite o uso do Dupla Câmara em crianças recém nascidas, com resultados a longo prazo muito animadores. Ao preservarmos a harmonia da contração cardíaca, com a contribuição do débito atrial, temos o melhor sensor que é o próprio nó sinusal, além de preservarmos a via endocárdica para procedimentos futuros.3 A distância da localização do gerador subxifóide, permite que a criança se desenvolva sem necessidade de grandes alças para o crescimento, e o resultado estético é muito bom.

Ainda a favor da técnica epicárdica, temos evitarmos a trombose precoce de vasos que tem de suportar eletrodos de tamanhos que variam de 5 a 7 French. A performance a longo prazo dos eletrodos endocárdicos versus epicárdicos com esteroides não se mostraram diferentes como descrito por Cate e cols, tanto em relação a limiares de estimulação e sensibilidade, bem como sua durabilidade.

Finalizando e não menos importante é qual a programação a ser empregada? Mais uma vez a idade, a cardiopatia de base nos norteiam. A liberação da frequência máxima, com atenção especial para o ajuste do Delay AV dinâmico, ajuste de períodos refratários, evitando o Bloqueio 2:1, tem de fazer parte de nossa preocupação. O Holter de 24 horas é uma ferramenta que nos auxilia bastante nestes ajustes. A realização de Raio X de Tórax para o acompanhamento do crescimento da criança e do comportamento do eletrodo diante deste crescimento também faz parte de nossa rotina.

Tabela 1. Frequência Cardíaca de acordo com a idade

Repouso (acordada)

Repouso (dormindo)

Esforço (chorar, mamar…)

0-3 meses

100-190

80-180

> 200 bpm

3 meses-2 anos

80-150

70-120

> 200 bpm

2-10 anos

75-110

60-90

> 180 bpm

> 10 anos

55-90

50-90

> 180 bpm

Os sintomas de bradicardia em crianças são bastante variados, desde o simples cansaço ao mamar, passando por irritabilidade, sonolência, baixo ganho ponderal (ganho de peso) e até síncope.

Concluindo, a estimulação cardíaca em crianças é um grande desafio que vem sendo vencido com a parceria de equipes multidisciplinares envolvendo pediatras, cardiopediatras, cirurgiões cardíacos pediatras e estimulistas, que não veem esta criança apenas como um adulto pequeno e sim com todas as particularidades que ela possui.

Por Dra. Cecília Monteiro Boya Barcellos – Autora convidada de PACEMAKERusers

Publicado Originalmente em – Esquina Científica – DECA (Link)

Padrão