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Armas TASER podem ser potencialmente letais para portadores de dispositivos cardíacos implantáveis

Mais uma vez PACEMAKERusers vem interpelar pelo bom senso, respeito e cuidado com decisões políticas que podem levar risco à saúde do povo brasileiro, e vem pedir que as pessoas sejam informadas adequamente do risco que correm com a arma de eletrochoque, a qual usualmente chamamos de taser. Dizer que a arma taser “não é letal”, é deixar a população desinformada de que SIM: EXISTEM RISCOS.

Em um país onde anualmente as doenças cardiovasculares matam milhares de brasileiros, e cuja morte súbtia também tem alta incidência, é mais do que temerário que milhares de pessoas com predisposição a arritimias cardíacas possam estar sujeitas a levar um choque por meio da TASER. E lembro que mesmo que você não seja o alvo direto, o simples fato de encostar na pessoa que está recebendo a descarga elétrica também faz de você uma vítima por levar o choque por contato. (Conheça a Campanha Coração na Batida Certa da SOBRAC – arritmias e morte súbita)

A Lei Orgânica Municipal endossada pelo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, divulgado pelo Jornal o Globo na última sexta-feira (Link), deixa a pergunta sobre o que mudou de setembro do ano passado para cá, pois naquela época, a mídia publicava que sobre o despreparo para o uso da arma na matéria de título: “Guarda Municipal do Rio é proibida de usar arma não letal”, e isso há cerca de 8 meses. Ou seja, já existe um precendente, e não é novidade, que de certa forma há a necessidade de se tratar esta questão com o cuidado que se pede, e falta muito ainda para que relamente a população possa estar segura a este respeito.

No ano passado PACEMAKERusers convidou a sociedade a pensar e discutir mais de perto o Projeto de Lei 2801/11 (Link) de autoria do deputado Luiz Argôlo, que altera o texto do Estatuto do Desarmamento (Lei nº 10.826/2003), relacionado ao uso de armas de incapacitação neuromuscular, arma de eletrochoque (chamada Taser), a qualquer cidadão comum com mais de 18 anos, mediante apresentação de nota fiscal de compra e residência fixa, cuja análise deverá ser realizada pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

Os riscos do uso de arma de eletrochoque já foram abordados pela mídia sobretudo em 2012. Em diferentes matérias acessadas na internet é possível encontrar conteúdos relacionados publicados, incluindo óbitos. Mesmo a alegação de que a versão brasileira da arma de eletrochoque é menos letal, e ainda que o desenvolvimento da tecnologia tenha sido realizado em parceria com a bem conceituada Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj) e com o Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), isto não exime a tecnologia criada dos seus potenciais efeitos de prejuízo à saúde das pessoas.

Por isso, tendo em vista que a questão dos riscos para saúde e o já relatado potencial de letalidade deste tipo de arma, ou seja, mortes relatadas, PACEMAKERusers vem levantar a necessidade de se esclarecer o assunto de forma global, considerando-se todos os atores que possam estar direta ou indiretamente envolvidos.

Lembramos aqui, os esforços da Sociedade Brasileira de Cardiologia – SBC, e de Juristas, para alertar para a gravidade da situação. Esta é uma questão de saúde pública. Por isso, e por entender que se uma entidade respeitada e reconhecida como a SBC teve seu posicionamento e esclarecimentos especializados sobre potenciais danos à saúde das pessoas, desconsiderados.

Sim. A falta de informação é uma arma de choque para o cidadão, principalmente quando se descobre à deriva de projetos e Leis Orgânicas Municipais cujas bases de segurança para a saúde da população são fracas e questionáveis em sua origem.

A Copa do Mundo, batendo às portas, não deve ser o motivo pelo qual decisões como o uso da arma de eletrochoque, cujos resultados e efeitos de potencial prejuízo para a saúde das pessoas podem ser permanentes, sejam tomadas em tão pouco tempo. Gol contra!!!!!

PACEMAKERusers lembra ainda que não apenas os portadores de dispositivos de estimulação cardíaca artificial (marca-passo, ressincronizadores cardíacos e desfibriladores) correm riscos no contato com a referida arma. Se uma pessoa apresenta pré-disposição à arritmias cardíacas, estas outras também correm riscos. Esta afirmação é baseada no que já se produziu de conhecimento científico sobre o funcionamento do aparelho cardiovascular (leia-se, mais precisamente, o coração). Entretanto, na outra ponta, o Projeto não apresenta nenhum argumento baseado em conhecimento científico relevante para defesa.

No mês de fevereiro deste ano, a TASER DO BRASIL entrou em contato comigo, me convidando para participar de uma pesquisa com vários pesquisadores do mundo inteiro. TUDO PAGO. Eu respondi que me interessaria em participar SIM, por ser pesquisadora, consultora em pesquisa, com Pós-Doutorado, e ainda pelo meu interesse relativo à segurança da arma para a população. Interessante que ao responder sobre meu interesse, com um enfoque na minha preocupação para o os riscos à população, NÃO ME RESPONDERAM MAIS! Vai ver que o e-mail se perdeu!

Enviei algumas perguntas para especialistas responderem sobre o outro lado da moeda, que a população não tem acesso.

Agradeço ao Dr. Bruno Valdigem (CRM/SP 118535) – Eletrofisiologista, Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e Membro da SOBRAC (Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas); e ao Dr.Ricardo Hernane Lacerda Gonçalves de Oliveira (CRM/MG 18639) – Médico Cardiologista, pela atenção em responder às questões enviadas por PACEMAKERusers.

PACEMAKERusers: Do ponto de vista do sistema elétrico do coração, do seu funcionamento, como as armas de eletrochoque podem levar à uma arritmia cardíaca?

Dr. Ricardo Hernane: Os equipamentos teoricamente de defesa que utilizam eletricidade costumam ser designados como “armas de menor potencial ofensivo”. Costumou-se chamar genericamente, ou denominá-las de “taser”.

Duas considerações devem ser feitas, uma física e outra fisiológica. Primeiramente vamos lembrar uma formula da Física que determina potência (em Watts) e da qual extraímos: P = VI onde P é a potência, V é a voltagem e I é a intensidade de corrente. A conversão em joules, ou seja, outra unidade de potência, exige uma outra fórmula. Lembrando este fato vamos analisar um desfibrilador ou cardioversor elétrico. Este equipamento médico permite a descarga de até 360 J monofásico ou 240J bifásico a cada uso. Esta descarga ocorre em um único segundo, sendo que os aparelhos, quando se vai fazer uma cardioversão elétrica, ou seja, o paciente não apresenta uma parada cardíaca mas necessita do choque para reordenar os batimentos cardíacos, são sincronizados. Sincronizar significa que a energia do aparelho será liberada em um momento especifico do ritmo cardíaco para que não corra o risco de desencadear uma arritmia grave e potencialmente letal, ou seja, cause uma parada cardíaca no paciente.

Outra consideração é fisiológica. O coração numa analogia simplória, é uma bomba eletromecânica. Após cada batimento que decorre da denominada despolarização, o coração se repolariza para novo ciclo. Neste momento de repolarização há um momento no qual um novo estimulo pode desencadear uma arritmia, que pode levar a uma parada cardíaca. Este momento ocorre a cada batimento. A sincronização referida anteriormente impede que a descarga elétrica do aparelho médico ocorra nesta hora.

Tecendo as considerações sobre a descarga elétrica das armas de choque, ou de menor potencial ofensivo. A frequência cardíaca (FC) mínima normal é 60 batimentos por minuto ou seja 1 batimento a cada segundo. O aumento da FC implica num número maior de batimentos por segundo. A descarga da arma de choque é de 6 segundos. Ou seja se o agredido pelo choque estiver com 60 batimentos por minuto o coração em 6 segundos ficou exposto ao risco de uma arritmia grave por pelo menos 6 vezes. O aumento da FC aumenta o número de possibilidades de risco bem como o choque sucessivo.

As armas letais têm seu risco controlado pelo agente que delas faz uso. O risco das armas de choque depende do atirador e do agente passivo. Uma exposição maior causada pelo portador da arma e um coração susceptível a arritmias aumenta o risco de transformar aquela arma de menor potencial numa arma absolutamente letal.

PACEMAKERusers: Idosos e mulheres gestantes geralmente estão sujeitos em diversas situações a impactos maiores do ponto de vista da saúde, advindos de sua interação com fatores externos, como por exemplo, o uso de medicamentos, segundo alertam alguns segmentos comerciais em seus produtos. Existem riscos aumentados para esta população para além daqueles conhecidos para as pessoas que não fazem parte deste grupo? Em caso afirmativo quais?

Dr. Bruno Valdigem: Gestantes O potencial risco ao bebê é maior pelo baixo débito e lesão de tecidos moles e neurológicos. Idosos apresentam maior chance de complicações, como hipertensão, diabetes, e infarto, condições que favorecem arritmias espontaneamente.

PACEMAKERusers: Em relação à versão nacional da arma de choque, a principal inovação da arma brasileira é que seu choque libera 40% menos energia. Considerando-se que esta afirmativa tem a intensão de minorar efeitos prejudiciais à saúde de quem recebe a descarga elétrica, do ponto de vista do sistema elétrico do coração, uma carga 40% menor, se comparado às armas de eletrochoque disponibilizadas no mercado, é realmente inócuo à saúde? E ainda, com uma carga 40% menor, em uso estritamente controlado, e em condições totalmente ideais, leia-se tempo de exposição ao choque, e controle de disparo único, ou seja atenção máxima ao protocolo para uso, pessoas com predisposição à arritmias cardíacas, portadores de estimulação cardíaca artificial, idosos e gestantes estão mais protegidos de riscos à saúde?

Dr. Bruno Valdigem: A energia de uma máquina taser padrão é em torno de 70mJ, muito pouco comparado, por exemplo, ao choque de um desfibrilador, que é de 360J. A duração do choque é de cerca de 5 segundos. Duração maior não é recomendada pelo fabricante. A interferência observada por uma desfibrilação em cima do MP ou CDI não deve ser relevante com energia tão baixa do taser. Assim, a redução, apesar de atraente, não deve ser significativa. Cabe lembrar, porém, que a segurança tem relação com a duração e número de tentativas. Se a redução da energia obrigar o policial a usar mais choques, por mais tempo, ela pode se tornar mais perigosa.

Por Drª. Luciana Alves PhD – Fundadora e Líder de PACEMAKERusers – Portadora de marca-passo cardíaco

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